quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Somos todos filhos da Bahia - Por André Mello.

A Bahia é mãe. Isso é claro desde sempre.
Tudo que ela produziu ao decorrer da história é prova irrefutável disso.
Lá foi onde o Brasil começou, a primeira capital do país.
A Bahia é um berço. Lá se deu a conexão continental mais intensa que já se viu:
América do Sul e África. Há tanta poesia nisso, visto que há muito tempo atrás, os dois continentes eram um só.
Milênios se passaram, e, ironicamente, as coisas voltaram a se conectar. Escravos vindos da África, chegaram a Bahia, á bordo de navios negreiros. A Bahia é a África, com toda a sua cultura e os seus Orixás. A Bahia é vanguarda, a África é vanguarda, um passo a frente na evolução humana.
A África é o berço da humanidade. A Bahia é o berço do Brasil. Perceberam a poesia?
E só em uma atmosfera como essa, seria possível produzir-se tantos gênios
como os que de fato foram produzidos pela Bahia.
Dorival Caymmi, Jorge Amado, João Gilberto, Tom Zé, Maria Bethânia,
Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso... São só alguns desses grandes nomes.
Caymmi e Jorge Amado, deram o maior exemplo de que devagar se vai longe, fizeram da preguiça algo sacro, algo a se respeitar, de fato eles é que de certa forma "fundaram" toda aquela superficial preguiça da Bossa Nova, aquele bom e velho "deixar para mais tarde".
Os cariocas devem ser gratos a Bahia. Até porque, a mesma Bossa Nova, se deu, quando um certo baiano, já em terras cariocas, radicalizou a maneira de tocar violão e cantar.
Cantar manso, sem pressa, tocar baixo, sem medo. Baiano é bicho manso, sem pressa, falam baixo, e não tem medo da vida.

Mas há fúria na mansidão também, e isso os baianos tropicalistas mostraram, o descontentamento se fez através do concretismo e do modernismo, que eles fizeram o favor de nos apresentar. Eles disseram não a Bossa Nova, Caetano disse não a seu mestre João, o mesmo João que escandalizou tão brilhantemente o seu mestre Caymmi.
Sempre um superando o outro. A vida artística e cultural do Brasil jamais seria a mesma. Agora o desbunde era a nova ordem. Foi na Tropicália de Gil, Caetano e Gal, que o Brasil se tornou planetário, tal qual a Bahia. Deu-se algo que não era machismo, não era feminismo também. Algo fora da direita e fora da esquerda, deu-se algo.

"Nós tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas elas. E vocês?" Disse Caetano em meio às vaias.
Não era época de se brincar. Gal Costa gritava.
Era o grito de toda uma geração. Ela não gritava por desproposito, naquele grito, ela exorcizava demônios que assombravam aquela juventude daquele final dos anos 60. Ela gritava pra se fazer ouvir. Ela gritava por Gil, por Caetano, pelo exílio dos dois, ela gritava por aqueles, que tão precocemente, eram silenciados. O Silêncio era alto naquela época. Era preciso estar atento e forte. Não havia tempo para se temer a morte.

Um pouco mais tarde que isso, outro tropicalista, Tom Zé,
atacava todo mundo em seu brilhante disco Todos os Olhos de 1973.
"Todo compositor brasileiro é um complexado". Cantava o baiano. E ousava até mesmo falar "daquela tal classe que ou passa a aprender com os alunos, quer dizer, com a rua, ou não vai sobreviver". Havia fúria na mansidão.

Maria Bethânia, gritava, declamava, com fúria e mansidão:
"Carcará, pega, mata e come!" em pleno palco, no Teatro Opinião.
Não era de seu interesse ter a imagem vinculada com o Tropicalismo, mas o seu poder de interpretação, sua voz, sua fome nos palcos, eram de uma força descomunal,
que se equipara com toda a força tropicalista.
E não se engane, o Tropicalismo não começou em 1967.
Quando Carmem Miranda começava a cantar
"O que é que a baiana tem" (de Dorival Caymmi),
o Tropicalismo já estava ali de algum jeito.
E quanto a força tropicalista, essa se deu, quando os primeiros africanos,
deram seus primeiros passos nas areias da Bahia de Todos os Santos. Já a preguiça?
Essa é diretamente relacionada ao mar e os seus mistérios...
"Quem vem pra beira do mar, nunca mais quer voltar”
Axé.

Nenhum comentário:

Postar um comentário